quarta-feira, 1 de abril de 2020

ROSA DE HIROSHIMA


Rosa de Hiroshima


Numa confraternização de advogados ao término de reunião da OAB, após umas e outras, o Dr. Luigi Henry Ferrante, respeitável causídico de Sorocaba, criou coragem para contar uma estória quase trágica, embora de viés picaresco.
 – Acho que alguns de vocês já sabem de minha fixação pelo Japão, sou nipomaníaco, adoro a cultura, a comida e fico ... quando vejo uma japonesa de quimono, de mini-saia, de jeans. Perceberam? Cogitei até aprender a língua para me aproximar delas, vejam só. Semanas atrás completei 40, quarenta anos! Meu Deus, como passa o tempo! E então me dei conta de que até hoje ainda mantenho uma certa virgindade,  digamos assim.
– Já saquei essa sua nipomania Luigi, desembucha logo, falou o Dr. Gouveia, completando o copo do colega.
– Pois bem, recentemente fui visitar meu mano caçula em Cuiabá; véspera de casamento, dele, of course. Os amigos de Ricardo, o irmão a que me refiro e que alguns já conhecem, organizaram uma festa de despedida de solteiro; ainda guardam este costume os tabaréus daquelas bandas; coisa de babacas, na minha opinião. A festa, é claro, foi no lupanar mais granfo da cidade, lugar frequentado pela elite, fazendeiros, políticos, até um tal de Monsenhor Varani e o pastor Diosdado aparecem por lá periodicamente, me informaram. Dizem que só vão para “congraçamento”, articular ações de interesse público e não para aquilo que os outros costumam ir. Vai saber ...
– Tá ficando interessante, interrompeu o Gouveia, continue.
– Eu bem que argumentei com Ricardo: – mano, pra zona na véspera do casamento? E se pega uma DST, comé que fica? Contamina a pobre da Maria Auxiliadora já na lua de mel; tenha dó mano, crie juízo, se a mãe sabe ... Mas não teve jeito, tudo organizado, só me restou dizer, – pelo menos leve preservativo. Ao que ele argumentou: – ­Não precisa, é putaria de elite, lá tem tudo, camisinha, lubrificante, e só mulheres sadias, vacinadas – me disse, até com certo orgulho. Eu, embora curioso, pois não costumo frequentar esses ambientes, fiz um pouco de cu-doce, só pra constar, mas confirmei presença; irmão é irmão ora bolas, não posso dar uma de veadinho numa hora destas.
– E daí?, disse o cara do charuto.
– Bem, o local era mesmo de elite; em Sorocaba não tem disso não, pelo menos que seja de meu conhecimento, e olhe que Sorocaba é um centro e tanto, circula muita grana – eu não quis participar da suruba coletiva que o Queiroz organizou para os quatro amigos – Vão lá, aproveitem; vou ficar tomando meu gim-tônica, só urubuservando o movimento, ver se o bispo, ou o monsenhor, aparecem, brinquei.
– Nobre Dr. Ferrante, vamos aos finalmentes – atalhou o desembargador Mendes, servindo-se de mais um scotch.
– Continuando, debicava meu drinque calmamente quando fui abordado por uma moreninha, mulata clara, digamos, olhos de jabuticaba; pra resumir, uma graça; perguntou se eu aceitava companhia, respondi com um movimento dúbio de cabeça. Perguntou o que eu estava bebendo; nunca tinha tomado gim-tônica; sentou no sofá comigo e foi se chegando. Eu, logo de cara, avisei – Bebel, era este seu nome, pelo menos foi o que me disse: – Veja bem não vim aqui pra fazer um programa, não sou disto, só estou visitando, passando tempo, não sei se entende; por isto não quero empatar seu trabalho, pago seu drink com prazer, mas se aparecer um cliente, vá, não se acanhe que eu não me ofendo. Deu um riso gostoso como quem conhece seus poderes de fêmea, e foi tomando liberdades; eu na minha, tranquilo e relaxado debicava meu gim. A baianinha, de Itaparica, era educada e razoavelmente culta, achei; papeamos e começamos uns amassos; eu sempre alertando, olha, não quero transar, só bebericar e passar uma horinha; contou um pouco da vida dela, 21 anos; pensei, mas não disse que parecia menos – segurei a tentação de dar conselhos, há tempos descartei minha pretensão de mudar o mundo. Depois de resumir sua estória, uma coletânea de razões para justificar porque estava ali, tipo padrasto alcoólatra que a assediava desde pequena, quis saber da minha vida, casado, filhos ... acabei dizendo que era advogado, contando as maravilhas de Sorocaba, quase uma metrópole (nunca aprendi a mentir). Percebi que o papo, despretensioso, foi ficando mais sério quando perguntou se seria bem recebida em Sorocaba, não se acostumara no MT ..., mudar de vida, essas coisas que todas elas dizem ... Confesso que me preocupei.
– Vai colega, e daí – voltou a pressionar o desembargador.
– Bem, a coisa rolava bem no segundo GT quando vejo entrar uma japonesa, com sombra nos olhos amendoados, um colant longo que salientava curvas que só vi na estrada de Santos, a antiga; foi direto pro bar, deu um beijo perfunctório no barman e pegou um copo longo com um espumante, champanha, talvez; acendeu cigarro em longa piteira, deu uma baforada e olhou pra mim. Mama mia, pensei, será? Uma nissei, é claro; provavelmente descendente de avós de Okinawa, presumi pela pele amorenada. Meu Deus, quarenta anos e ainda virgem de uma oriental da gema; lembrei das conversas com os colegas de ginásio, as fantasias, aquela estória de chibiu atravessado ... ainda mais que a baianinha já deixara o sucuriú assanhado. Eu olhava, ela me olhava e lambia a borda da taça com uma língua cor de flor de flamboyant. Gente, como disse, não sou disso, mas 40 anos ... e até agora só caucasianas e afrodescendentes; quantas vezes acordei sonhando com uma nissei que trabalhava na Globo, o lençol melecado ... Não, não podia perder a oportunidade de acrescentar uma japonesa em meu CV, outra oportunidade como essa, cavalo arreado ...  Com muito jeito apelei: – Bebel, me desculpe amor, estou gostando de você, mas fica proutra vez meu bem – um último beijo e me dirigi ao bar, meio acanhado.
Como quem não quer nada encostei no balcão, pedi mais um gim e fiz um approach que vi num filme do Paul Newman, e o papo rolou.
– Aqui sou conhecida como Rosa, Rosa de Hiroshima, disse num sotaque um pouco estranho, e um sorriso maroto. Afobado, e quase trêmulo, por estar prestes a realizar um sonho de adolescente nem perguntei o preço. Rosa, ou seria Sadako, Yoko (?), como todos de sua raça era direta e objetiva, e eu não queria correr riscos, vai que aparece um cliente e ela mude de ideia; subimos a escada rumo ao quarto 9, com hidromassagem, ela sugeriu, eu aceitei.
– E?, alguém perguntou.
– Irmão, você não vai acreditar: a baianinha veio atrás e com o batom foi riscando minha camisa social, e gritando gigolô filho da puta, ofendendo minha mãe em altos brados além de ameaçar cortar a cara da nissei de navalha. Rosa apenas deu um muxoxo e saiu requebrando; eu, morrendo de vergonha por ter chamado a atenção da seleta plateia, que ria discretamente, senti a estrovenga se encolher em sua concha; Rosa abriu a porta, entrei rápido e fechei com chave, pensando onde encontraria uma camisa para voltar pra casa; maldito sonho de adolescente!
– Finalmente comeu uma japonesa, concluiu o dr. Gouveia.
– Esperem. No quarto Rosa teve uma performance regular, não posso reclamar, e para ser sincero não notei qualquer diferença nas anatomias que interessam nessas horas. Além da estória do chibiu atravessado que sabia desde muito que era farofa, a cabelagem não era macia como de um gato angorá, e não gemeu nem gritou como uma gata virgem ao ser penetrada, como vi em um filme pornô. Depois do ato demorei-me de propósito com vergonha de descer a escada e enfrentar a baianinha; pedimos uma sidra de Jundiaí, que era o que ela tomava regularmente, e ficamos trocando figurinhas. Perguntei se seus avós eram de Okinawa. – O quê, nunca ouvi falar deste lugar – Estranhei a resposta, mas ... Afinal de onde, seus ancestrais? Respondeu que a família toda ainda vivia na periferia de Lima, onde tinha nascido; ainda adolescente brigara feio com o pai, autoritário, descendente de Quéchuas; fugiu pra Tabatinga, desceu o Solimões até Belém em uma gaiola e de galho em galho havia chegado ao MT em seu caminho para o sul. Seu sonho era morar com uma colega que trabalhava numa boate de Osasco ... Quando saí o leão-de-chacra deu um tapinha nas minhas costas: – Da próxima vez fique com a baianinha; é  muito mais gostosa que a Mercedes Yupank. Que filho-da-puta!
E sabem do mais, o babaca aqui nem usou camisinha. Pode?  Quarenta anos ...
– Depois dessa acho que você deve pagar a conta, seu otário – disse o Gouveia.

NÃO É NÃO


NÃO, É NÃO! ou NÃO É, NÃO?


Juizado de Mulheres Vara da Violência Doméstica – Quarta feira, Audiência das 14:00 Hrs – Autos 1878/2020 – Segredo de Justiça Caso 32.

A juíza já estava se cansando deste tipo de caso, cada vez mais frequente: “Violência contra mulheres”. A rotina era tanta que ao ler o caput do processo da denuncia da Promotora de Justiça: “Acusação de Assédio Sexual”, sua mente já antecipara a sentença mesmo antes ouvir o depoimento da vítima e, não fosse o protocolo da corte diria ao escrevente : “mais um filho-da-puta que vai se danar comigo, o terceiro só nesta semana.”

– Dona Ivonete Nascimento?
– Eu mesma doutora, em carne e osso.
– Tome assento e me diga de que se trata.
– Bem, doutora, eu venho sendo abusada por um indivíduo e quero uma indenização por ser vítima de estupro, assédio e tudo mais.
– Dona Ivonete, a senhora precisa ser mais específica. Para lhe ajudar vou tipificar as principais ocorrências neste tipo de infrações da lei segundo os cânones da nossa legislação:
1.       Se envolver violência física o problema deve ser tratado pela “Lei Maria da Penha”.
2.       Configura-se como assédio sexual constranger alguém com o intuito de obter favorecimento sexual por superior hierárquico, inerente ao exercício de emprego, cargo ou função.
3.       Configura-se como estupro qualquer conduta com emprego de violência ou grave ameaça que atente contra a liberdade sexual de alguém, sendo a ausência de consentimento da vítima o fator decisivo. Portanto, forçar a vítima a praticar masturbação, felação, ainda que sem penetração, é crime de estupro.

Isto posto quero ouvir em que categoria de ofensa a senhora se enquadra.  E, antes de mais nada, fique tranquila que a culpa nunca é da vítima, não interessa o traje que ela esteja usando no momento da violência física, do assédio ou do estupro, o que ela tenha dito ou feito.

– Bem ... doutora, pra ser sincera com a senhora, não sei bem onde me enquadro... Diria que foi um misto de estupro com assédio, e uma quase violência.
– Em função do estresse que, imagino, a senhora esteja passando, sua dúvida é compreensível. Então me descreva com palavras simples o que vem acontecendo para que eu possa precisar qual categoria de infração penal foi cometida pelo autor dos atos alegados.
 Bem, doutora, por exemplo: se ponho uma blusa com decote em V, ele logo resvala o braço em meus peitos como se fosse sem querer, mas é claro que não foi, né – a doutora sabe como são esses homens machistas; se ponho mini-saia, diz que estou gostosa e às vezes tem o desplante de passar a mão na minha bunda, que, não sei se a doutora notou é ... (engoliu a palavra ao ver que a doutora franzia a testa) ... – e continuou – veja a doutora que outro dia, na maior cara de pau disse que queria me lamber inteirinha, o pervertido ...
– Dona Ivonete, pelo que a senhora está me contando temos um caso grave de assédio que deve ser punido na forma da lei ...
– A doutora acha é? Mas ainda não viu nada, é muito pior ...
– Como assim?
– Vive me oferecendo bebida, até espumante, vez em quando; acho que é pra me deixar meio grogue e melhor se aproveitar de meu corpo.  Imagina que tentou até me penetrar com aquele ..., nunca vi outro igual, contando ninguém acredita – a meritíssima arregalou os olhos com o gesto de dona Ivonete –  Se não sou esperta ... Bem, no fundo, fiquei com medo que descobrisse que eu não era virgem, nada de sério, um priminho meu ..., a doutora entende né?; essas coisas que acontecem com toda moça inocente  ...
– A senhora fez exame de corpo de delito?
– Nem sei bem o que é isto. Era preciso?
– Nestes casos é sempre conveniente.  A senhora tem alguma relação hierárquica com ele, quero dizer tipo patrão/empregada?
– Bem, não sou empregada, mas ele paga minhas despesas e me dá uma espécie de mesada.
– Acho que não entendi o tipo de relacionamento que a senhora tem com o acusado.
– Bem, doutora, o fato é que vive me pressionando para fazer sexo com ele.
– Mas quando, onde?
– Em casa, quase toda noite.
– Mas então a senhora mora com o agressor? É seu parente, por acaso?
- É meu marido! Mas só no civil. O desgraçado não quis casar no religioso.

– Meirinho ...

terça-feira, 3 de março de 2020

• LINDOS

Recostado numa tamareira, onde se protegia do sol, Costas fazia argolas com a fumaça do charuto toscano atento aos movimentos de uma loira que saltava ondas protegendo com as duas mãos os cabelos. Dezessete anos talvez, alta, coxas esguias com tênue penugem dourada, maiô escasso que deixava à vista côncavos e convexos, e os peitos ... Os peitos empinados! Chamara sua atenção ao entrar na van com os turistas escandinavos que trouxera a Lindos naquela manhã de sol e céu argentino. Muitas mulheres com os peitos de fora, corpos tentadores. Mas estava acostumado, virara rotina. Agora, seios como aqueles ... atraiam a limalha de seus olhos como um imã. Sentia certo desconforto quando, entre uma onda e outra, ela surpreendia seu olhar. Disfarçava fingindo olhar para o horizonte, mas eles voltavam, a princípio cautelosamente, depois, não resistindo, de forma ostensiva. Dane-se. Sua fantasia voava solta. Foi se convencendo de que ela não se aborrecia com a insistência de seus olhos morenos. Parecia até se divertir, assumindo poses provocadoras, encorajadoras, talvez. Sabia que era bem apessoado, atencioso com os turistas, respondia a todas as perguntas sobre a Grécia. Não um apolo, mas seu bigode bem aparado, corpo atlético, aspecto asseado e fresco era, no mínimo, "um tipo interessante" - já lhe haviam dito mais de uma vez. O dia tinha sido exaustivo para os turistas, pela intensa atividade física e pelo mormaço. Costas passara sentado a maior parte do tempo, mesmo assim a umidade e a brisa salgada deixavam uma sensação desagradável, a pele pegajosa, os olhos ardendo. Só pensava em escovar os dentes, tomar um banho e relaxar. Sentiu-se aliviado quando, após demorada e barulhenta refeição, o grupo se reuniu para voltar ao Mythos Resort, na ilha de Rhodes. Mais umas duas horas deixaria a van na agência e estaria em casa tomando uma cerveja no terraço de seu apartamento, a imagem da loira de companhia. A van subia lentamente a estrada sinuosa. O grupo já não tinha ânimo para a algazarra da vinda, dormitava sob ação das enzimas digestivas. Vapores etílicos e de bronzeador chegavam até Costas que procurava concentrar-se na direção. A loira resmungou qualquer coisa para a moça que estava ao lado e pulou para o banco do motorista. Costas lançou um olhar obliquo de surpresa e curiosidade. Tentou puxar conversa com seu inglês capenga. Ela ameaçou um sorriso. Aqueles seios acobreados pelo sol, agora tão perto, a blusa mal abotoada, uma sensação esquisita, asas de borboletas roçando sua barriga. Melhor nem pensar. Os faróis já acesos, as curvas perigosas. Curva mais apertada, mão quente esbarra em sua coxa. Recolheu a perna. Na curva seguinte, a mão quente de novo. Não recuou a perna, abriu-a um pouco mais. Pelo rabo dos olhos viu que ela olhava pela janela oposta. Uma onda de calor percorreu sua espinha, suor escorria. Estaria sendo testado pela companhia de turismo? Procurou prestar mais atenção na estrada - o carro pedia marcha mais forte que ele demorara a engatar. Agora a mão esquerda dela parecia acariciar a parte interna de sua coxa direita, sentia o calor. Não se atrevia a olhar. Ela continuava a olhar pela janela. Um olho na estrada outro no retrovisor. A caldeirada de frutos do mar e o vinho grego faziam efeito nos passageiros, embalados pelo ron-ron monótono do motor a diesel. A mão, cada vez mais ousada, parecia tatear em busca do zíper. Suor frio, os postais de falos eretos, que tanto riso haviam provocado nos turistas ... por Zeus, ela ... Reduziu a velocidade, tentou se controlar, tarde demais ... Sem dizer nada ela pulou para o banco de trás. Costas respirou fundo, três vezes. Um olho na estrada outro no retrovisor. Limpava a boca na manga da blusa? Um olho na estrada outro no retrovisor. Cochichava e ria com a amiga. Aposta? Estacionou a van no resort. Ela foi a última a descer, estendeu a mão, olhou em seus olhos pela primeira vez. Ele disse Tak. Ela não disse nada.