Rosa de Hiroshima
Numa confraternização de
advogados ao término de reunião da OAB, após umas e outras, o Dr. Luigi Henry Ferrante,
respeitável causídico de Sorocaba, criou coragem para contar uma estória quase
trágica, embora de viés picaresco.
– Acho que alguns de vocês já sabem de minha
fixação pelo Japão, sou nipomaníaco, adoro a cultura, a comida e fico ...
quando vejo uma japonesa de quimono, de mini-saia, de jeans. Perceberam?
Cogitei até aprender a língua para me aproximar delas, vejam só. Semanas atrás
completei 40, quarenta anos! Meu Deus, como passa o tempo! E então me dei conta
de que até hoje ainda mantenho uma certa virgindade, digamos assim.
– Já saquei essa sua nipomania
Luigi, desembucha logo, falou o Dr. Gouveia, completando o copo do colega.
– Pois bem, recentemente fui visitar
meu mano caçula em Cuiabá; véspera de casamento, dele, of course. Os amigos de
Ricardo, o irmão a que me refiro e que alguns já conhecem, organizaram uma festa
de despedida de solteiro; ainda guardam este costume os tabaréus daquelas
bandas; coisa de babacas, na minha opinião. A festa, é claro, foi no lupanar
mais granfo da cidade, lugar frequentado pela elite, fazendeiros, políticos,
até um tal de Monsenhor Varani e o pastor Diosdado aparecem por lá periodicamente,
me informaram. Dizem que só vão para “congraçamento”, articular ações de
interesse público e não para aquilo que os outros costumam ir. Vai saber ...
– Tá ficando interessante,
interrompeu o Gouveia, continue.
– Eu bem que argumentei com Ricardo:
– mano, pra zona na véspera do casamento? E se pega uma DST, comé que fica?
Contamina a pobre da Maria Auxiliadora já na lua de mel; tenha dó mano, crie
juízo, se a mãe sabe ... Mas não teve jeito, tudo organizado, só me restou
dizer, – pelo menos leve preservativo. Ao que ele argumentou: – Não precisa, é
putaria de elite, lá tem tudo, camisinha, lubrificante, e só mulheres sadias,
vacinadas – me disse, até com certo orgulho. Eu, embora curioso, pois não
costumo frequentar esses ambientes, fiz um pouco de cu-doce, só pra constar,
mas confirmei presença; irmão é irmão ora bolas, não posso dar uma de veadinho
numa hora destas.
– E daí?, disse o cara do
charuto.
– Bem, o local era mesmo de
elite; em Sorocaba não tem disso não, pelo menos que seja de meu conhecimento,
e olhe que Sorocaba é um centro e tanto, circula muita grana – eu não quis
participar da suruba coletiva que o Queiroz organizou para os quatro amigos –
Vão lá, aproveitem; vou ficar tomando meu gim-tônica, só urubuservando o
movimento, ver se o bispo, ou o monsenhor, aparecem, brinquei.
– Nobre Dr. Ferrante, vamos aos
finalmentes – atalhou o desembargador Mendes, servindo-se de mais um scotch.
– Continuando, debicava meu
drinque calmamente quando fui abordado por uma moreninha, mulata clara, digamos,
olhos de jabuticaba; pra resumir, uma graça; perguntou se eu aceitava
companhia, respondi com um movimento dúbio de cabeça. Perguntou o que eu estava
bebendo; nunca tinha tomado gim-tônica; sentou no sofá comigo e foi se
chegando. Eu, logo de cara, avisei – Bebel, era este seu nome, pelo menos foi o
que me disse: – Veja bem não vim aqui pra fazer um programa, não sou disto, só
estou visitando, passando tempo, não sei se entende; por isto não quero empatar
seu trabalho, pago seu drink com prazer, mas se aparecer um cliente, vá, não se
acanhe que eu não me ofendo. Deu um riso gostoso como quem conhece seus poderes
de fêmea, e foi tomando liberdades; eu na minha, tranquilo e relaxado debicava
meu gim. A baianinha, de Itaparica, era educada e razoavelmente culta, achei;
papeamos e começamos uns amassos; eu sempre alertando, olha, não quero transar,
só bebericar e passar uma horinha; contou um pouco da vida dela, 21 anos;
pensei, mas não disse que parecia menos – segurei a tentação de dar conselhos,
há tempos descartei minha pretensão de mudar o mundo. Depois de resumir sua
estória, uma coletânea de razões para justificar porque estava ali, tipo
padrasto alcoólatra que a assediava desde pequena, quis saber da minha vida,
casado, filhos ... acabei dizendo que era advogado, contando as maravilhas de
Sorocaba, quase uma metrópole (nunca aprendi a mentir). Percebi que o papo,
despretensioso, foi ficando mais sério quando perguntou se seria bem recebida
em Sorocaba, não se acostumara no MT ..., mudar de vida, essas coisas que todas
elas dizem ... Confesso que me preocupei.
– Vai colega, e daí – voltou a
pressionar o desembargador.
– Bem, a coisa rolava bem no
segundo GT quando vejo entrar uma japonesa, com sombra nos olhos amendoados, um
colant longo que salientava curvas que só vi na estrada de Santos, a antiga; foi
direto pro bar, deu um beijo perfunctório no barman e pegou um copo longo com
um espumante, champanha, talvez; acendeu cigarro em longa piteira, deu uma
baforada e olhou pra mim. Mama mia, pensei, será? Uma nissei, é claro;
provavelmente descendente de avós de Okinawa, presumi pela pele amorenada. Meu
Deus, quarenta anos e ainda virgem de uma oriental da gema; lembrei das
conversas com os colegas de ginásio, as fantasias, aquela estória de chibiu
atravessado ... ainda mais que a baianinha já deixara o sucuriú assanhado. Eu
olhava, ela me olhava e lambia a borda da taça com uma língua cor de flor de
flamboyant. Gente, como disse, não sou disso, mas 40 anos ... e até agora só
caucasianas e afrodescendentes; quantas vezes acordei sonhando com uma nissei
que trabalhava na Globo, o lençol melecado ... Não, não podia perder a
oportunidade de acrescentar uma japonesa em meu CV, outra oportunidade como
essa, cavalo arreado ... Com muito jeito
apelei: – Bebel, me desculpe amor, estou gostando de você, mas fica proutra vez
meu bem – um último beijo e me dirigi ao bar, meio acanhado.
Como quem não quer nada encostei
no balcão, pedi mais um gim e fiz um approach que vi num filme do Paul Newman,
e o papo rolou.
– Aqui sou conhecida como Rosa, Rosa
de Hiroshima, disse num sotaque um pouco estranho, e um sorriso maroto. Afobado,
e quase trêmulo, por estar prestes a realizar um sonho de adolescente nem
perguntei o preço. Rosa, ou seria Sadako, Yoko (?), como todos de sua raça era
direta e objetiva, e eu não queria correr riscos, vai que aparece um cliente e
ela mude de ideia; subimos a escada rumo ao quarto 9, com hidromassagem, ela
sugeriu, eu aceitei.
– E?, alguém perguntou.
– Irmão, você não vai acreditar:
a baianinha veio atrás e com o batom foi riscando minha camisa social, e
gritando gigolô filho da puta, ofendendo
minha mãe em altos brados além de ameaçar cortar a cara da nissei de navalha.
Rosa apenas deu um muxoxo e saiu requebrando; eu, morrendo de vergonha por ter
chamado a atenção da seleta plateia, que ria discretamente, senti a estrovenga
se encolher em sua concha; Rosa abriu a porta, entrei rápido e fechei com chave,
pensando onde encontraria uma camisa para voltar pra casa; maldito sonho de
adolescente!
– Finalmente comeu uma japonesa,
concluiu o dr. Gouveia.
– Esperem. No quarto Rosa teve
uma performance regular, não posso reclamar, e para ser sincero não notei
qualquer diferença nas anatomias que interessam nessas horas. Além da estória
do chibiu atravessado que sabia desde muito que era farofa, a cabelagem não era
macia como de um gato angorá, e não gemeu nem gritou como uma gata virgem ao
ser penetrada, como vi em um filme pornô. Depois do ato demorei-me de propósito
com vergonha de descer a escada e enfrentar a baianinha; pedimos uma sidra de
Jundiaí, que era o que ela tomava regularmente, e ficamos trocando figurinhas.
Perguntei se seus avós eram de Okinawa. – O quê, nunca ouvi falar deste lugar –
Estranhei a resposta, mas ... Afinal de onde, seus ancestrais? Respondeu que a
família toda ainda vivia na periferia de Lima, onde tinha nascido; ainda
adolescente brigara feio com o pai, autoritário, descendente de Quéchuas; fugiu
pra Tabatinga, desceu o Solimões até Belém em uma gaiola e de galho em galho
havia chegado ao MT em seu caminho para o sul. Seu sonho era morar com uma
colega que trabalhava numa boate de Osasco ... Quando saí o leão-de-chacra deu
um tapinha nas minhas costas: – Da próxima vez fique com a baianinha; é muito mais gostosa que a Mercedes Yupank. Que
filho-da-puta!
E sabem do mais, o babaca aqui
nem usou camisinha. Pode? Quarenta anos ...
– Depois dessa acho que você deve
pagar a conta, seu otário – disse o Gouveia.