terça-feira, 3 de março de 2020

• LINDOS

Recostado numa tamareira, onde se protegia do sol, Costas fazia argolas com a fumaça do charuto toscano atento aos movimentos de uma loira que saltava ondas protegendo com as duas mãos os cabelos. Dezessete anos talvez, alta, coxas esguias com tênue penugem dourada, maiô escasso que deixava à vista côncavos e convexos, e os peitos ... Os peitos empinados! Chamara sua atenção ao entrar na van com os turistas escandinavos que trouxera a Lindos naquela manhã de sol e céu argentino. Muitas mulheres com os peitos de fora, corpos tentadores. Mas estava acostumado, virara rotina. Agora, seios como aqueles ... atraiam a limalha de seus olhos como um imã. Sentia certo desconforto quando, entre uma onda e outra, ela surpreendia seu olhar. Disfarçava fingindo olhar para o horizonte, mas eles voltavam, a princípio cautelosamente, depois, não resistindo, de forma ostensiva. Dane-se. Sua fantasia voava solta. Foi se convencendo de que ela não se aborrecia com a insistência de seus olhos morenos. Parecia até se divertir, assumindo poses provocadoras, encorajadoras, talvez. Sabia que era bem apessoado, atencioso com os turistas, respondia a todas as perguntas sobre a Grécia. Não um apolo, mas seu bigode bem aparado, corpo atlético, aspecto asseado e fresco era, no mínimo, "um tipo interessante" - já lhe haviam dito mais de uma vez. O dia tinha sido exaustivo para os turistas, pela intensa atividade física e pelo mormaço. Costas passara sentado a maior parte do tempo, mesmo assim a umidade e a brisa salgada deixavam uma sensação desagradável, a pele pegajosa, os olhos ardendo. Só pensava em escovar os dentes, tomar um banho e relaxar. Sentiu-se aliviado quando, após demorada e barulhenta refeição, o grupo se reuniu para voltar ao Mythos Resort, na ilha de Rhodes. Mais umas duas horas deixaria a van na agência e estaria em casa tomando uma cerveja no terraço de seu apartamento, a imagem da loira de companhia. A van subia lentamente a estrada sinuosa. O grupo já não tinha ânimo para a algazarra da vinda, dormitava sob ação das enzimas digestivas. Vapores etílicos e de bronzeador chegavam até Costas que procurava concentrar-se na direção. A loira resmungou qualquer coisa para a moça que estava ao lado e pulou para o banco do motorista. Costas lançou um olhar obliquo de surpresa e curiosidade. Tentou puxar conversa com seu inglês capenga. Ela ameaçou um sorriso. Aqueles seios acobreados pelo sol, agora tão perto, a blusa mal abotoada, uma sensação esquisita, asas de borboletas roçando sua barriga. Melhor nem pensar. Os faróis já acesos, as curvas perigosas. Curva mais apertada, mão quente esbarra em sua coxa. Recolheu a perna. Na curva seguinte, a mão quente de novo. Não recuou a perna, abriu-a um pouco mais. Pelo rabo dos olhos viu que ela olhava pela janela oposta. Uma onda de calor percorreu sua espinha, suor escorria. Estaria sendo testado pela companhia de turismo? Procurou prestar mais atenção na estrada - o carro pedia marcha mais forte que ele demorara a engatar. Agora a mão esquerda dela parecia acariciar a parte interna de sua coxa direita, sentia o calor. Não se atrevia a olhar. Ela continuava a olhar pela janela. Um olho na estrada outro no retrovisor. A caldeirada de frutos do mar e o vinho grego faziam efeito nos passageiros, embalados pelo ron-ron monótono do motor a diesel. A mão, cada vez mais ousada, parecia tatear em busca do zíper. Suor frio, os postais de falos eretos, que tanto riso haviam provocado nos turistas ... por Zeus, ela ... Reduziu a velocidade, tentou se controlar, tarde demais ... Sem dizer nada ela pulou para o banco de trás. Costas respirou fundo, três vezes. Um olho na estrada outro no retrovisor. Limpava a boca na manga da blusa? Um olho na estrada outro no retrovisor. Cochichava e ria com a amiga. Aposta? Estacionou a van no resort. Ela foi a última a descer, estendeu a mão, olhou em seus olhos pela primeira vez. Ele disse Tak. Ela não disse nada.

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